Alguma vegetação
de restinga, alguma singeleza de mata atlântica, tenta nos dar uma sensação
confortável de caminho, mas um caminho não existe e todos os caminhos existem. Não
há um caminho óbvio e seguro aberto no meio da restinga pelos facões do
progredir humano; um caminho pisado e seco por milhões de pés mais corajosos,
só o que há é a natureza se fingindo de trilha ladeando-nos um destino e, se o seguirmos à confiança, conheceremos o nada. O nada parado e sem saída, a não ser voltar e
recomeçar em outro fingimento de caminho, ou ultrapassar à força a
impossibilidade comoda dos espinhos que incomodam os tornozelos, dos galhos finos que acabaram por nos cercar.
A vegetação da restinga nos levou até o ponto em que não podemos escapar do
reconhecimento de sua grandeza. Sem paredes, sem desvelos, onde queremos chegar sempre nos estará visível, mas estamos presos no que nos é comodo e
na aparência familiar de uma trilha entre bromélias, cactus e orquídeas, até
nos desposarmos de nossa petulância e de nossa audácia de saber, dominar e
controlar.
A restinga é a
eterna novidade dos ventos e das dunas. Durmamos numa restinga e acordaremos
em outra. Os caminhos se refazem e os passos humanos se apagam, o homem não se
faz marcar mais do que o vento e a vida se expande para todos os lados como
verdade. Não há caminho, há todos os caminhos e eles caminham.
O tempo passa
afofado como a areia que parece querer reter os nossos pés como a raízes velhas.
Talvez o mais certo seria se deixar virar cactus, sugando qualquer misera partícula
de água e vivendo do sumamente necessário, ou se deixar deitar como um galho seco
morrendo como um pouso para pássaros cansados e para a toca de qualquer um bicho que se
amedronte, mas o passo ritmado do peito localiza na sequencia dos pés a frente –
direito, esquerdo -, nesse descolar e recolar constante da areia fina, quase
como repetidos cortes de cordões umbilicais, a essência da vontade de seguir
adiante. Para além do que é certo ou errado, o que apenas é.
A restinga
vive, sobrevive e super-vive, em tudo que ela impera nesse contato (e impera em
tudo): na sua sede, no seu ritmo, nos seus não-caminhos, no seu tempo, e, sobretudo, no seu penamento de amplidão. Um caboclo observa do alto da duna Mãe
qualquer sobra que, por ventura, se estender sobre a terra. Todos os caminhos – e,
consequentemente, nenhum – estão expostos, previamente revelados e simples. Só há devir e porvir nesta eternidade mutável e constante, como se o tempo fosse outro nesse lugar, e o é, como se em segundos presenciássemos milênios de vento a agir, o tempo em todo o seu poder místico se pronuncia na restinga. Mas não há desvelo essa palavra é uma parede conceitual, construto arquitetônico ideológico limitante, fruto da nossa mente, também, limitada e presa nas picadas que forjamos... miragens do que desejamos conhecer.
Das dunas da restinga vemos o exato "não-vêlo", está ali dado, nada é capaz de esconder, aquilo
que não queremos mais ver e que é a ordem reabilitada das coisas, tudo em seu sentido exato: o sentir. Não há como impor
mais nossa ditadura humanística. Do alto da duna a terra reflete ela mesma
e o homem se encontra só.

Nenhum comentário:
Postar um comentário