quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Salina: o visgo, o cristal e o monte de sal


Como andar em um lugar que te suga, te prende, te segura e te empunha?

Devassando-o, pois só mesmo o gosto por burlar as regras, esse nosso traço inerente de afrouxamento do que nos é imposto como o normal, é capaz de nos levar a andar onde não devíamos, e onde não conseguimos a perfeição dos detalhes humanos.
A cada passo dado em uma salina a experiência de comunhão natural, de completude de si e de “achamento” do ego enquanto parte, se expande por sobre as pegadas deixadas e a resposta da força racional que nos leva a ir adiante, mesmo com a força natural do sal a nos agarrar os calcanhares, faz da nossa cabeça o peso do pêndulo do corpo que segue.
É preciso querer em demasia a fuga para que não se deixe salinizar a alma por completo e a graça está justamente nesse jogo. As cores, as tonalidades de cada parte de água exposta ao sol, a sequidão daqueles rosas alaranjados. O outono do céu sempre aos pés. Deixar-se é o comando do instinto de quem está numa salina, seguir demanda empenho.

Quantas sandálias eu já perdi correndo estupidamente no refreio brusco das águas quase secas da salina? Quanto de mim, além das sandálias, não ficou para trás marcado nas pegadas? Quanto de medo não aprendi a visitar brincando de pisar onde velhos homens de sal trabalhavam com seus rodos? Quanto desse gosto salgado da meninice ainda não goteja em meu paladar?

Não há como esquecer-se de si, ou não perceber-se como apenas um adendo de um montante monumentalmente inalcançável, como um "naturalesco" afresco daquilo que existe antes do homem e apesar dele. O homem, esse ser pré-urbanizado e manipulador ao pisar no visgo cálido da salina não é mais nada que não seja partilhado com o visgo de igual forma. Sal na terra; sal na água; sal nos olhos; sal na pele..., uma enorme escultura de sal que não serve, não é útil e permanece.

Ali naquela fina camada cristalizada que encobre o que ainda há de fluido, mas que não demorará a tornar-se um seco, duro e branco monte de sal, eu plantei meus pés e senti-me tragado. E a experiência que antes era a de absorver, como uma bromélia, a alma aberta da restinga, na salina passa a ser a de ser sugado pelo medo, pelo abandono, pelo silêncio, pelo visgo como qualquer outra fonte de sal, ou melhor, como algo que está, também, fadado a ser somente mais um seco, duro e branco monte de sal.


André Vargas

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